segunda-feira, 8 de julho de 2013

OS "UMBRAIS" DE LÚCIA BLANC BARNEA



    Hoje faz exatamente uma semana que retornamos e que estou esperando um momento de tranquilidade para escrever sobre mais esse nosso reencontro - sempre muito felizes e prazerosos -, sobre o seu livro, sobre os umbrais de nossas vidas. Enfim, este momento surgiu meio que na marra, no alvorecer de mais um dia, antes que, novamente, cáia na roda do dia a dia corrido.
    Ainda não retomei à rotina. Cheguei com cinco malas grandes e nenhuma ajuda em casa. Também, como você sabe, meu pai já estava internado - e continua até hoje. Apareceu mais alguma infecção, ainda não se sabe de onde. Exatamente quando, anteontem,  mesmo que ainda completamente debilitado, já estivesse tendo alta da pneumonia, razão pela qual, à princípio, foi internado. Uma luta, pois aqui não se deixa o paciente sozinho no hospital, tendo de ser acompanhado 24 horas por dia. E ele dá trabalho. Pelo menos somos muitos irmãos para fazer o revezamento. Está com 98 anos e 1/2 e, agora, o que podemos fazer é acompanhá-lo com carinho, buscando aliviar os momentos difíceis. Ele é super-rebelde, pois está meio confuso, mas não totalmente. Não gosta que toque suas partes íntimas nem gosta de usar fraldas, não quer tomar remédios (só os diretos na veia), e, momentaneamente, recusa alimentos. Você conhece o longo processo, talvez tenham que sedá-lo para passar sonda alimentar. Enfim, uma trilha dolorosa...
    Estava ansiosa para comentar com você sobre a leitura dos seus textos e sobre o quanto adorei visitar a sua casinha gostosa, íntima - um misto de casa israeli com drom americai -, e rever suas lindas e interessantíssimas filhas. Fiquei encantada com as duas; a delicadeza de meninas rosas (que não criei nenhuma), danças, cantos, perguntas, o carinho. Adorei te ver mãe - prestativa, assertiva, carinhosa, cozinheira(!); e mulher - produtiva, calorosa, sensível, inteligente e, como sempre, linda.
    Adorei ler Umbrais. Li rapidinho, no fim da viagem e nos tempos de espera nos aeroportos. Podia simplesmente te dizer que realmente gostei muito, que já identifiquei em seus textos um estilo próprio e promissor, em consonância com uma literatura mais moderna. Mas quis buscar um tempinho maior para te passar uma análise mais detalhada. 
    Na leitura de Umbrais, fui absorvida por seus personagens, suas micros-histórias, sua dicção primorosa e refinada, e, também (não podia deixar de ser), pela inscrição biográfica da autora. Nos contos, nem personagens nem espaços geográficos estão bem delineados (Brasil / Israel / África / América do Sul: para os entendidos), e o tempo não é factual, mas é o da imaginação e dos sentimentos do eu-lírico. Dessa forma, os leitores que conhecem os espaços ou os epsódios trazidos para os contos talvez possam delineá-los com mais clareza e desfrutar de uma leitura mais fácil e fluente. Mas esta imprecisão, seja de narradores que se alternam, de tempo/espaço e de personagens, não prejudica a literariedade dos textos, pois mesmo aqueles que desconhecem a geografia ou o tempo dos casos narrados podem se encantar com as descrições, personagens e acontecimentos, mesmo porque o fato de trançar tempo/espaço real e ficcional, mesclando personagens fatuais e ficcionais, proporciona uma leitura mais requintada, tanto do espaço como do tempo ali inscritos, sem prejuízo para os contos. Quanto a estrutura do livro, me pareceu muito bem montada. Os contos, por não obedecerem uma linearidade, vão e voltam no tempo, formando um quebra-cabeça interessante, um jogo de armar e desarmar que permite ao leitor, caso deseje, se aventurar em uma leitura não-linear, montar a seu modo a narrativa, criando novos e diversos sentidos para o texto, numa orientação mais contemporânea de literatura.
    Quanto aos textos de O passado e o futuro - "O baú" e "A caixa", achei-os bem mais enigmáticos. Não consegui descobrir uma linha que me norteasse, nem no primeiro nem no segundo. Apenas vislumbrei algumas possibilidades. Não consegui apreendê-los. Talvez você possa me dar algumas chaves para eu fazer uma nova leitura e te dar um parecer melhor. A princípio há duas opções: o texto pode ser trabalhado para se tornar menos hermético ao outro, ou pode ser um daqueles textos geniais que o leitor comum nem sempre está preparado para ler (dependendo muitas vezes do momento da leitura, de encontrar ou não um foco - como numa poesia que cada vez que se lê descobre-se uma nova nuance, um novo sentido - ou de algumas leituras críticas e estudos literários que possam orientar o leitor - como em Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Maria Gabriela Llansol ou Mia Couto). Por isso peço a sua ajuda para relê-los, numa via de mão dupla, você me orienta e eu te retorno.
 

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