Alonzinho era um menino de verdade, mas
vivia no mundo da fantasia. Na verdade, ele transformava fantasias em
realidade...
Ele gostava tanto de historinhas, que na
escola onde estudava e no prédio onde morava, todos o conheciam pelas fantasias que usava.
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O quarto dele era assim:
Em cima do criado, um pequeno aparelho de
som em que ele ouvia músicas e histórias, um barco pirata, um castelo e uma
cestinha cheia de surpresinhas — miniaturas de todos os tipos, maçãs da bruxa e
algumas balinhas.
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Na parede havia uma prateleira lotada de filmes. Debaixo dela, um armário com gavetas — cheias de bugigangas —, uma TV, um DVD e um enorme baú de brinquedos — que ele adorava virar tudo no chão!
Em cima da cama, outra prateleira cheinha de livros — só dele! — e de brinquedos de pelúcia. No guarda-roupa, muitas fantasias!
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— Este menino come histórias,
bebe
histórias,
respira
histórias!
“Será que ele vive de histórias?”, pensava
a vovó, preocupada.
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Todas as historinhas que ouvia ia armazenando em sua cabecinha - cheia de ideias...
(Lá vem ele falando algo engraçado)
“De onde este menino tira tantas ideias?”,
perguntava o vovô, abismado.
6
Às vezes virava o lobo-mau: calçava as
botas sete-léguas, e o chicote do Zorro servia-lhe de rabo. Um dia ele pediu
à mamãe:
— Faz as orelhas do lobo pra mim?
Pacientemente, a mãe cortou duas orelhas de
papelão, grampeou-as no elástico e amarrou-o debaixo do queixo do menino.
— Agora faça uma boca assim, pontuda, ó! —
disse, enrolando a folha em forma de tubo em volta do nariz.
— Ooô! Tem de ter paciência de Jó! —
reclamou a mamãe.
— Quem é Jó? — perguntou, curioso.
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— Jó foi o homem mais paciente do mundo.
— Por quê?
— É uma longa história. Outro dia lhe conto
— disse a mamãe, tentando adiar a tarefa.
— Conta, vai! Por favooor!
— Depois.
— Ele tinha escravos? — perguntou,
completamente esquecido do lobo.
— Como você sabe?
— Os escravos de Jó jogavam caxangá, ora! —
Ele conhecia todas a musiquinhas de cor.
— É mesmo! Eles jogavam caxangá! Vamos
brincar de Escravos de Jó? — sugeriu a mãe, escapando aliviada da tarefa
de fazer a boca do lobo e de ter de explicar a triste história de Jó.
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Na escola — ah! ele adorava a escola! —
a turma dele era a mais animada! Nas aulas de Música, eles cantavam, dançavam e
divertiam-se a valer. Nas aulas de Educação Física, só queriam saber de brincar
e de correr.
Quando chegavam os dias festivos, a
apresentação da turma dele era a melhor da escola, pois todos adoravam fazer
teatro. Ivan, Maya, Fernando, Bruna, Leo, Rodrigo, Bernardo, Sofia, Izabella, Hanna, Andre,
Jack, Isabela, Ariela, Rachel e Alon, que turminha animada!
9
Na sala, o Cantinho da Leitura era o maior
sucesso. Todos traziam livros de casa, e cada um queria ser o primeiro a contar
sua história. Depois, cada um ficava com o livro do amigo e nunca faltavam
historinhas para ler e contar.
Quando
chegou o “Semestre das Poesias”, a turma adorou! Havia poemas muito engraçados:
O pato pateta pulou do poleiro no pé do
cavalo
Levou um coice, criou um galo...
Era uma casa muito engraçada
Não tinha teto não tinha nada...
do Vinícius e do Toquinho.
Não tinha teto não tinha nada...
do Vinícius e do Toquinho.
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Mas não pensem que ele gostava só de coisas
muito sérias... O menino tinha dois irmãos, e, como todos os meninos do mundo,
eles adoravam piadas...
— Irmão, conta a piada do bêbado? — pedia
sempre.
— Dois bêbados abraçaram-se, despedindo-se:
“Vai com Deus”, falou um deles. O outro foi andando e, de repente, toim!
Trombou em um poste. Então disse, nervoso: “Ô, Deus, vem comigo, mas não
empurra não!”.
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- “Irmano”, conta outra! – Era a vez do
outro irmão contar.
- Dois bêbados caminhavam, quando viram
algo estranho no passeio. “Cuidado, é cocô!”, disse um deles. “Não, é chocolate!”
– “Vamos experimentar para tirar a dúvida”, disseram. Os dois abaixam-se e
experimentam: “Hum, é cocô!” “Sorte que não pisamos, heim?”
E os meninos rolavam de rir.
12
Uma vez, na época do Natal, papai comprou-lhe a fantasia do Papai Noel. Mas logo ele dividiu-a em duas. O casaco passou a ser o manto da rainha malvada... O chapéu com barba serviu perfeitamente como gorro e barba dos Sete Anõezinhos.
13
Logo depois vieram as férias de janeiro, e
o menino viajou com a família. Levava na bagagem algumas fantasias e o inseparável
ursinho Fofinho, para acompanhá-lo durante a noite.
Desta vez, ia fantasiado de anãozinho. Um
pedaço de pau servia-lhe como ferramenta de trabalho.
— Eu vooouuuu! — ia cantando, animado.
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— Oi, Papai Noel! — diziam todos, ao vê-lo
passar.
— Eu sou o Feliz!
— Papai Noel está feliz? — um ou outro
perguntava.
Então, de cara fechada, tornava-se zangado.
— Você tem de explicar que é o anãozinho
Feliz — consolava-o a mamãe.
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Então ele tentava se fazer entender de uma outra maneira...
— Oi, Papai Noel!
— Eu não sou Papai Noel! Eu sou o Zangado —
dizia, bravo.
— Papai Noel está zangado? Por quê?
— Porque você não entende nada! —
sentenciava, e, deixando o adulto de lado, voltava feliz a jogar o seu faz de conta.
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Nas noites, antes de dormir abraçado a
Fofinho, papai contava-lhe histórias. Histórias sem pé nem cabeça, inventadas
de acordo com o interesse do freguês. O Menino Chamado Ninguém, O
Castelo dos Macacos Azuis eram suas preferidas.
Mamãe contava histórias em cantigas:
Quando eu era pequenino, de pezinho no chão
Eu picava papelzinho pra fazer balão...
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Nem quando ele dormia seus amigos o
deixavam em paz — vinham brincar em seus sonhos...
— Vamos, menino! Venha brincar na Terra do
Nunca — convidava Peter Pan.
— Psiu! Agora não, Peter Pan! Deixe o
menino dormir sossegado! — pedia o ursinho Fofinho, guardando o sono do amigo.
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Enquanto o “anjinho” dormia, depois de mais
um dia agitado, exausta, a família se reunia no sofá.
— Este menino está passando dos limites —
reclamava a mamãe.
— Já não aguento mais inventar historinhas
— dizia o papai.
— Também vocês fazem tudo o que ele quer —
insinuava um dos irmãos.
— E a bagunça que ele faz? — cutucava o
outro.
— Mas ele é até bonzinho demais... —
ponderava a mamãe.
— E como é carinhoso... — derretia-se o
pai.
— E tão engraçadinho... — concordava o
irmão.
— Não vamos exagerar...
Mas num ponto todos tinham de concordar:
esse menino era mesmo especial! Com seu jeito carinhoso e criativo, chegava sempre onde queria!
Aos avós e irmãos do Alon, à
escola judaica de Belo Horizonte, Escola Theodor Herzl, a cada um dos professores e colaboradores, à diretora Iara Leventhal Aronis, à coordenadora
Tania Araújo, a Jaime Aronis, à Edith, à Glória, aos condutores do Escolar,
Eduardo e Alexandre, aos colegas e aos pais dos colegas de nossos filhos, a
Regina Resende, a Íris, ao Tarcísio, a Heloisa
Ximenez, aos rabinos Nissim Katri e Leonardo Alanati, todos shutafim no
crescimento e desenvolvimento de nossos filhos, Alon, Ariel e Elias — que
estudaram e se formaram nesta escola entre os anos de 1988 a 2010 —, dedico
estas divertidas lembranças de nosso amado filho Alon, formando deste ano de
2010; também à nossa nora Izabella e à sobrinha Gabriela,
irmãs que o Alon não teve, dedico estas lembranças.
Este texto foi escrito para Alon, nosso caçula, aproximadamente em 2000.
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