sábado, 20 de julho de 2013

PASSAGEM

A última chuva lavou minha alma
enquanto eu lavava o chão da casa.
Cheiros novos chegaram à janela
com a brisa da primavera.
Abri em par as portas dos armários
para que ela os visitassem.
Lavei roupas e pendurei-as ao vento.

Meus filhos ainda dormem o sono dos ingênuos.
Meu companheiro toca guitarra para acalmar a alma.
Troco os chinelos por tênis,
junto os cabelos no alto
e saio para renovar pensamentos.

Cheiro doce no ar, flores de laranjeiras,
rakefot, calaniot, margaridas amarelas.
É primavera. Renovação.
Paro as obras da vida
e espero de peito aberto o que
ela tem para me dar.

Raquel Yehezkel/ Ramat Hasharon 
Chag Aviv Sameach!
Pessach, Abril de 2012








2

A CASA

Ar estático, no tempo, petrificado.
A casa ao pé da praça, silenciada.
Um muro a separa da vida. Diacronia.
Um dia, nela, a vida corria.

Na sala de jantar, minha avó sorri, alegre.
Meu avô já não está.
Mais que um retrato na parede, ele vive -
na memória de minha avó,
no nome de seus netos,
na solidez da casa que construiu para ela.

Minha avó, resignada, tateia
à luz ofuscante do meio-dia o caminho
entre a cozinha, a varanda e o quarto –
único caminho múltiplo.
Cada móvel guarda,
impressas sem pressa,
suas marcas – minha origem.

As memórias não são minhas,
são vozes de meu pai, de minhas tias,
de vidas silenciadas, sussurradas do passado.
Casa viva, morta-viva, encerra mil lembranças.
Meus avós na parede da sala.

À entrada, debaixo de um crucifixo,
na cadeira de couro esculpida pelo toque de seu corpo,
ela espera.
A serpentina no fogão à lenha esquenta água para o banho.
Na chaleira, a água ferve o café na hora da merenda.
Ouve-se o silêncio do sol se enterrando em terras estranhas
atrás dos montes, do cruzeiro da Praça
dos coqueiros, que choram as dores do indaiá.

Porta e alma sempre abertas
à espera de quem busca abrigo -
escancaradas de dia, cerradas de noite.
Aí não se ouvem palavras senão de amor –
por mais singular que seja o filho ou o neto.
Deitada em berço esplêndido,
apegada a Deus e às lembranças que se ausentam,
descansa no colo da noite que consome.

O lugar sagrado no leito de minha avó.
Clara-Clarinda. Jovem-clara. Alma clara.
Do travesseiro vê-se um pedaço do céu sem tempo,
o sabor da chuva, o cheiro da terra.
Um baú guarda os alvos lençóis.
Uma cômoda ostenta objetos sagrados:
santos e netos em porta-retratos.
Uma cadeira de balanço,
filhos à sua volta,
o descanso eterno, enfim.

Na casa da Praça, preso ao calor das paredes,
em silêncio gritante, o tempo descansa.
Os olhos cegos de minha avó –
nos móveis torneados pelo relar de suas mãos,
nos objetos intactos da cristaleira – ainda guiam.

Uma casa quente, congelada na Praça.
Você viu?
A presença de minha avó.
O entorno de minha família.
Imperfeita.
Perfeita no que é.
 Agosto de 2006
À meus avós, Clarinda e Belmiro;
A meu pai, Emídio Teles de Carvalho;
A meus tios: Aleluia, Zezinha, Maria, Alzira, Elza, Haydée, Joaquim, Geraldo, Chiquinho e Aurora.
A meus primos e irmãos, e a nossos filhos e netos;
A todos que, como eu, cresceram nesta casa


Casa da Vó Clarinda 18.1.2020
Foto de Eduardo Guimarães 

Raquel Teles, 2014. No quadro, a fazenda dos Cocais, onde meu pai nasceu



Márcia Teles, 2014 - No quadro, a fazenda das Perobas, dos meus avós, onde nasceram meus tios

Mamãe, Maria Teles, com a sogra, Vó Clarinda Teles e o primo Euler Caetano

Vó Clarinda Teles com os netos e bisnetos



Praça dos Coqueiros. Foto de Eduardo Guimarães

Raquel e Márcia Teles






.

ODE A MENACHEM PERRY

Na cozinha de minha casa,
a história dele penetra a minha
como um raio que sai do rádio.
A voz entrecortada,
revela uma alma sensível,
machucada pela vida.
Ainda assim, a voz insiste
em contar sua história,
e, eu, abro a minha alma
para encontrar a dele
e a daqueles que se perderam
nesse tempo sombrio.
Uma vela acesa
lembra-me que dia é hoje,
e conduz-me aos tempos de outrora,
um tempo que não vivi,
mas que carrego em mim.

Ele, menino, junto ao rádio,
escuta, atento, um programa dos anos 50,
e anota, todos os dias,
os nomes daqueles que procuram pela família
após o fim da Guerra.
Talvez tenha a sorte de ouvir, quem sabe,
o nome de um dos irmãos que se perderam.
Filhos do pai ou filhos da mãe,
que ele, Menachem Mendel -
em Eretz Israel, apenas Menachem Perry  -
jamais chegará a conhecer.
Filhos de um tempo em que
ele ainda não existia.
Na decepção dos nomes não ditos,
o pequeno Menachem
menachêm (consola) os pobres pais.

Todos têm um nome,
mas, do bebê de sua mãe, nada restou,
nem mesmo o nome se sabe,
impronunciável que era.
A mãe já não está
e não há mais ninguém para lembrar.
Ninguém!
Nome, talvez, indizível
devido a dor que contém.

O menino cresceu -
ouço sua voz vinda do rádio -,
foi a Auschiwtz e a Birkenau
colher, com as próprias mãos,
um pouco da terra daquele lugar,
única coisa que deles restou.
E com essa terra, o homem-menino-Menachem
enterrou seus irmãos em Eretz Israel,
em solo que nunca chegaram a pisar.

Da terra suja de sangue,
gritos saem de dentro das covas.
Vozes do passado sussurram histórias
que não querem calar,
de almas inocentes ultrajadas, humilhadas,
pisadas e soterradas.
Aqueles que se foram
não ouvirão Menachem Mendel chorar,
tampouco o ouvirão dizer, no rádio, 
que os ama
e que não os esquece,
mesmo não os tendo visto jamais.

A voz do homem-menino se cala,
já não ouvimos seu lamento.
Pisando o chão no qual pode ser livre,
com o sol a pino, pouco acima da linha do Equador,
observa, além, o mar Mediterrâneo.
É Primavera; 12h do dia 19 de abril de 2012, Yom HaShoá,
hora da Voz de Israel na Reshet Gimel.   
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Raquel Yehezkel 

Menachem Perry - Reshet Gimel, Israel


RIACHO DO CAMPO

A menina descalça pisa as pedras do riacho,
um calor pesado queima o corpo ao sol;
da sede buliçosa ao pé do morro, obra construída em três gerações,  
sobe o caminho que leva aos segredos dos gerais.

Vista infindável adentra os sertões,
vastidão e silêncio dos campos gerais,
de areiões atolantes e de buritis multiformes,
inundam o pensamento curioso,
Santa Felicidade!

Buriti bonito, estagnado à falta de brisa;
velho de pele trincada, mãos marcadas pela lida,
habita à beira da nascente;
água transparente brota das grotas, riscando veios mil
que arrastam consigo tristezas veredas abaixo,
banhando as almas empoeiradas de cidade,
que ali renascem, acumulam forças.

Ocupado em desembaraçar as próprias lembranças,
o tio canta A Gamela numa toada monótona;
outro, vem com a esposa escoar estresses acumulados em São Paulo;
um cuida da horta que o pai construiu -
alegria abubando amizades que se expandem;
outro, traz mais uma muda de árvore do cerrado para enfeitar os jardins;
abriram estradas, trouxeram gado, construíram currais e pontes.

Na varanda da cozinha sempre farta
- produto de uma generosidade multiplicada -,
funcionários conversam, riem, trocam notícias.
Crianças correm na grama, jovens jogam cartas, futebol,
passeiam a cavalo, fazem expedições às cachoeiras.
Passado, presente e futuro sentam-se à mesma mesa
em encontro fraterno, respeitoso,
à moda dos que se foram; 
fundadores de um tempo, de um templo,
de um modo de viver sem pressa,
com confiança e camaradagem.

Nesse lugar, a alegria é intransitiva, dispensa complementos.
Nessa terra, nessa areia, nessas águas cristalinas,
no calor do sertão mineiro,
a menina pôs os pés no riacho e dali nunca mais os tirou.
Há gerações, o ritual se repete. Seria isso a felicidade?

A meus avós Olímpia e Gervásio;
À minha mãe, Maria da Conceição;
A meus tios: Geraldo, Irmã Olímpia, Irmã Alzira, Therezinha, Joana D’Arc, Jacira,
Zezico, Zizinho, Mercedes, Antônio, Tarcísio, Gervásio, Rafael e José Eustáquio;
Aos meus primos e irmãos, e a nossos filhos e netos;
A todos que, como eu, pisaram este chão e estas águas.

Fazenda Riacho do Campo

NO QUINTAL DE MINHA INFÂNCIA



NO QUINTAL DE MINHA INFÂNCIA
Raquel Teles Yehezkel
Ergo a mão ao cacho de acácia amarela
e coloco-o com cuidado na calçada,
completando um desenho na procissão de Corpus Christ.
Das sete janelas da casa
pendem forros bordados pela mãe,
presos em vasos plantados pelo pai.

À entrada, encontra-se uma parreira de uvas verdes proibidas,
guardadas das pequenas mãos famintas por novidades.
Um terreno vazio, ladeado de goiabas, figos e marmelos,
recebe uma vez ao ano as sementes de feijão e de milho,
e, em novembro, um peru que ali cisca junto às galinhas,
alegra com gluglus os dias contados nos dedos para o Natal
e a chegada dos irmãos que estudam na capital.

Da cisterna tira-se água para a horta –
chuchu, couve, hortelã, abóbora, mandioca...
Do meio do quintal até o fundo –
início da vastidão do mundo -,
bananeiras, mangueiras, incontáveis jabuticabeiras,
um cajueiro frondoso do qual se assa castanhas na brasa,
dois abacateiros de frente um para o outro
guardam um balanço que ainda hoje dá frio na espinha...
descobertas, amor, zelo, carinho.

Me criei num pedaço do gan éden,
meu pai, um homem muito ativo,
estudou em Viçosa agronomia,
tirava leite das vacas,
fazia queijos, plantava e colhia,
dava boas gargalhadas, enchia a casa de alegria;
cozinhava deliciosos guisados, uma mistura de tudo,
em caldeirão preto no fogão a lenha;
à meninada sempre a sua volta
contava histórias de aventuras,
escrevia e declamava poesias.
Minha mãe, professora primária,
uma mulher muito prendada,
fazia doces, bolos, biscoitos, cantava e cosia.
Bordava lençóis, forros de mesa, panos de pratos,
vestidos de rendas com tiras bordadas e cianinhas coloridas,
conduzia com braço forte a meninada e os deveres da escola.
Dizia, impressionada com a vida,
que não valia uma unha de minha avó Olímpia,
que costumava dizer que não valia uma unha da mãe dela!

Quando a vida me aperta,
busco em mim a fonte eterna
de ancestrais olímpias e clarindas,
e nesta linhagem guerreira,
no gan éden de minhas claras-auroras,
me encontro sempre em pé,
altaneira e valente,
ciente que dele, dona sou.







Às minhas tias, primas, sobrinhas e netas, descendentes de Clara, Aurora e Mãe Olímpia; às minhas avós Clarinda e Olímpia; a meus pais, Maria e Emídio; à meus irmãos: Telinha, Té, Temá, Lúcia, Pinha, Emidinho, Márica, Bel, Vavá, Berto, Goretti, Henrique, Eduardo e Marcus; a meus filhos: Elias, Ariel e Alon; à netinha, Sara Yehezkel, e aos netos que ainda virão. (Maio de 2013)