Acordei em Israel com imagens de demolição das antigas casinhas da rua Congonhas, vizinhas ao Clube Makenzie, no bairro Santo Antônio, em Belo Horizonte. Numa delas viveu o grande escritor João Guimarães Rosa, vindo com a família de Cordisburgo para estudar na capital. Como pode ser? Local onde na adolescência moravam amigos, onde ficava o memorável Bar do Lulu, que reunia a rapaziada da época, e onde Helvécio Ratton filmou o Menino Maluquinho, de Ziraldo.
Por ali, na Santo Antônio do Monte e depois na São Domingos do Prata morava a vovó Malvina Saliba, avó emprestada de minha maior amiga Andréa L. Cunha, que nos servia houmus com pita feitos por ela, vinda do Líbano; morava também, na Alfredo Albuquerque, nossa amiga comum Beatriz Siqueira. Juntas, após comer pão de queijo assado na hora pela dona Arlete, na Viçosa, nos perdíamos pelas voltas dessas ruas em conversas fiadas, num caminho sem fim. Nessa mesma região, moravam a Devana, na Viçosa, a Dorinha Gouthier e a Cláudia Fenelon na Bahia e Carangola, minhas colegas no Estadual Central. Havia também a dona Irani, meus conterrâneos de Dores do Indaiá e netos da dona Amélia - na Benvinda de Carvalho. Por ali transitou a minha geração tantas vezes, entre o Mackenzie, o Padre Machado, tendo o Dom Silvério de um lado, o Coleginho e a Fafich do outro, o Estadual Central, o Minas e a Savassi - coração pulsante, mais abaixo, tudo à pé, via Carangola, Leopoldina e Viçosa, remetendo sempre, essas casinhas singelas, ao tempo de crianças brincando nas ruas e de cadeiras na calçada.
Crianças e adolescentes já não vão mais à escola nem visitam as casas dos colegas à pé, desconhecendo o território que habitam. O estilo de vida na cidade mudou completamente e continua mudando. Manter casas antigas, em região tão valorizada, muitas vezes é inviável para os proprietários. A prefeitura deveria ter assumido, há muitos anos antes, o projeto e a responsabilidade da revitalização desse conjunto arquitetônico charmoso e mágico. A construtora Canopus, que constrói prédios milionários, responsável pelo novo empreendimento, poderia pelo menos manter parte da casa onde viveu Rosa, na esquina de Congonhas com Leopoldina, no antigo Bar do Lulu, como memória do autor e da cidade, desse modo de vida que se extingue rapidamente por todos os bairros periféricos à avenida do Contorno. Poderia oferecer um presente à nossa cidade...
Texto de Raquel Teles Yehezkel
Em 25.7.2019, a Prefeitura de BH e a construtora Canopus anunciaram que as casas não serão demolidas, mas restauradas e preservadas em projeto de moradia. Aguardemos.
Fonte - Site Mais Minas. Acessado em 24/7/2019
https://maisminas.org/casa-onde-viveu-guimaraes-rosa-e-demolida-em-belo-horizonte/
Acessado em 27.7.2010:
https://blogs.oglobo.globo.com/afonso-borges/post/casa-onde-morou-guimaraes-rosa-em-bh-e-demolida-no-dia-do-escritor.html
Acessado em 27.7.2019:
https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2019/07/26/interna_gerais,1072518/conheca-projeto-que-deve-devolver-a-bh-casa-de-guimaraes-rosa.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social


triste demais e vergonhoso o descaso.
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