"As polacas", foi como ficaram conhecidas as moças judias enviadas para o Brasil, Argentina, Uruguai, com promessas de vida melhor e de casamento na América - termo usado intencionalmente de forma genérica para enganar os incautos. Os traficantes de vidas humanas, que conduziam essa jovens a uma nova vida, tomavam seus passaportes ao aportar no Brasil e as forçavam a trabalhar de prostitutas para pagar as despesas de viagem.
Assim, moças pobres, de aldeias remotas do Leste europeu, que não falavam sequer uma palavra do idioma local, entravam em um círculo de marginalidade social que no início do século XX não as permitia integração. Dessa forma, tornaram-se marginalizadas na sociedade local e na comunidade judaica.
Apesar das adversidades sofridas, souberam se organizar para se proteger; comemoravam as festas judaicas, tinham suas próprias sinagogas, ajudavam uma à outra na criação dos filhos que daí nasceram, e compraram para si terrenos para serem sepultadas conforme os rituais judaicos, já que não lhes era permitido serem enterradas nos cemitérios israelitas da época.
Nos últimos anos, a história das polacas vem sendo resgatada por seus familiares e estudiosos, passando a ser inserida no contexto do tráfico humano e das fugas à perseguição sofrida pelos judeus na Europa Oriental. Essas moças eram de várias partes da Europa Oriental, mas principalmente da Polônia, oriundas de aldeias / shtetls muito pobres, entregues pelas próprias famílias ao shadhan, especialista em arranjar casamentos, na esperança de um bom arranjo e de um futuro mais promissor na América. Assim se generalizou de modo pejorativo o termo "as polacas" para as prostitutas judias no Brasil e no Cone Sul.
Ao fazer referência a elas, não podemos deixar de citar a incrível história de Jacob do Bandolim, considerado um dos maiores compositores de chorinho, narrada de forma emocionante por Nelson Menda em artigo de leitura imperdível, "O Judeu do Bandolim", na Revista do Choro. Jacob do Bandolim era judeu, filho de mãe Polaca e de pai brasileiro. Cresceu no baixo meretrício, no bairro boêmio da Lapa. Se converteu ao catolicismo para se casar na igreja com Otília, uma jovem da classe média de Copacabana. Era pai de Elena e do músico Sérgio Bittencourt, que compôs em sua homenagem "Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim..."
Essas histórias estão amplamente documentadas em cartas que as moças enviavam às suas famílias na Europa, escondendo parte da realidade que viviam; em inquéritos contra a organização criminosa de Zvi Migdal, que as trazia da Europa com esquemas enganosos; e também na literatura brasileira, como em "O ciclo das águas", de Moacyr Scliar e em "Traduzindo Hannah", de Ronaldo Wrobel.
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Foto de Rogério Soares / Jornal A Tribuna de Santos |
https://revistadochoro.com/artigos/o-judeu-jacob-do-bandolim/
https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2019/06/30/cemiterio-israelita-e-reaberto-ao-publico-em-cubatao.ghtml
Kushnir, Beatriz. "Bailes de máscaras: mulheres judias e prostituição- As Polacas e suas associações de ajuda mútua. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
Largman, Esther Regina. Jovens Polacas. Rio de Janeiro: Record, 1992.
Filme: Jovens Polacas, de Alex Levy-Heller, baseado no livro de Esther Regina Largman.
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