Seguimos novos caminhos, deixando para trás a casa de nossos pais, como se faz desde o tempo de Avraham... E, através das palavras de Malamud, vejo Iákov deixar sua casa sem olhar para trás. Volto num tempo nunca vivido e visito um shteitel, em algum lugar remoto, perto de Kiev, ainda antes da Revolução Russa de 1917. Enxergo, então, como se perderam no tempo essas comunidades, e com elas um modo de vida que se extinguiu por completo em toda a Europa Oriental. Delas quase nada restaram - apenas alguns cemitérios e lápides...
Distantes no tempo, ficam para nós como um sonho, uma névoa - um modo de vida só revelado em fragmentos, como esses que cito a seguir, descritos tão bem por Bernad Malamud no livro "O Faz-tudo". Também o fez Bahsevis Singer em outros. Permanecem, ainda, em lindas e nostálgicas pinturas como em Marc Chagall, em registros literários, em uns poucos flashes de filmes, em memórias passadas de pais para filhos. Um modo de viver devastado pelo preconceito, pela inveja, pela maldade humana, varrido do mapa na II Guerra. Não há exercício racional que se faça entender. Não há capará, não há mechilá para a vida dos que se foram...
E assim, seguimos a vida, tentando sempre criar novos shteitels...
Trechos de "O Faz-tudo":
"- O que há no mundo lá fora - disse Shmuel -, há também no shteitel - há apenas gente com seus problemas, suas aflições, suas circunstâncias. Mas aqui, pelo menos, Deus está conosco.
- Ele está conosco até a hora em que os cossacos chegarem galopando. Nessa hora ele já estará em outro lugar." (...)
"- Você ficou diferente de um ano para cá, Iákov. Que desejos tão importantes são esses?"
(Perguntou o sogro, Shmuel, ao genro Iákov - um trabalhador faz-tudo, recentemente abandonado pela esposa infértil, que fugira com um outro.)
"- São desejos que não dormem nem me deixam dormir para lhes fazer companhia. Eu já lhe falei dos meus desejos: um estômago cheio de vez em quando. Um trabalho que me pague me rublos e não com pratos de macarrão. Até mesmo um pouco de instrução, se possível, e não estou falando dessas aulas de Torá que dão aos trabalhadores tarde da noite. Já tive minha cota dessas aulas. O que quero saber é o que está acontecendo no mundo.
- Está tudo na Torá e não se termina nunca de estudá-la. Fique longe dos maus livros, Iákov, dos livros impuros.
- Não existem livros maus. Mau é ter medo deles." (...)
- Iákov, se você quer mesmo ir para terras estrangeiras, apesar dos turcos, por que você não vai para a Palestina, onde os judeus podem ver árvores e montanhas judaicas respirar o ar judaico?" (...)
"- Agora vou tentar Kiev. Se puder levar uma vida decente por lá, é o que farei. Se não, farei sacrifícios, economizarei o que puder e parto para Amsterdã, onde pegarei um navio para a América. Em resumo, o que possuo é pouco, mas tenho planos."
(...) "O faz-tudo não olhou para trás. A carroça foi seguindo por uma estradinha cheia de curvas entre campos arados de terra escura (...) Mais lentamente, a carroça subiu a estradinha de pedras do cemitério com seus salgueiros amarelados entre os túmulos. Passaram por uma colina onde os túmulos eram assinalados por lápides baixas. Era lá que os pais de Iákov, um homem e uma mulher de pouco mais de vinte anos, estavam enterrados. (...) O passado era uma ferida aberta." (...)
"Um shnorrer em andrajos gritou para o faz-tudo de junto de uma lápide prestes a cair.
- Ei, Iákov, hoje é sexta-feira. Que tal uma moeda de dois copeques para que seu sábado seja abençoado? A caridade salva a morte.
- A morte é a última das minhas preocupações." (...)
"Deixaram para trás a colina do cemitério descendo por uma estradinha tortuosa. (...) atravessou a ponte de madeira que levava à parte mais populosa da cidadezinha. Passaram pelo casebre de Shmuel, mas nenhum dos dois olhou em sua direção. Uma casa de banhos de paredes escurecidas e janelas fechadas por tábuas ficava junto a um riacho e o faz-tudo foi acometido de um súbito desejo de um banho. (...) Água e sabão são coisas abençoadas por Deus, costumava dizer Raizl. Dentro de poucas horas a casa de banhos, soltando vapor pelas fendas, estaria apinhada de judeus a se lavarem para a noite de sexta-feira.
Seguiram sacolejantes por uma rua esburacada e poeirenta com casinhas de teto de palha de um lado e, do outro, um campo aberto onde o mato crescia. Uma judia usando uma grande peruca, sentada no degrau à frente de sua casa, depenava uma galinha de pescoço ensanguentado que prendia entre os joelhos (...). Uma poça de sangue na vala da rua era testemuna do ritual com que fora morta a galinha. (...) As portas de algumas das casas soltavam-se dos alisares e, onde havia degraus, estes estavam quebrados. As cercas estavam arrebentadas, algumas prestes a cair, mas ninguém parecia se importar com toda aquela decadência que deixava irritado o homem que consertava as coisas e gostava de vê-las em ordem e funcionando.
Naquela noite, velas brancas seriam acesas em todas as janelas, menos na sua.
O cavalo seguiu em ziguezague em direção ao mercado, e a qualidade das casas por onde passavam foi melhorando. Algumas eram grandes e bonitas e seus jardins ainda tinham flores de verão.
- Que esses ricos nojentos fiquem por aí com suas casas - murmurou o faz-tudo.
Shmuel não fez comentários. Sua mente, como ele já disse várias vezes, havia esgotado aquele assunto. Ele não invejava os ricos e queria apenas compartilhar um pouquinho da riqueza deles - o suficiente para manter-se vivo, dinheiro ganho com seu trabalho.
O mercado, uma praça aberta com prédios de madeira em dois de seus lados, alguns com lojas no segundo pavimento, estava repleto de camponeses com suas carroçaa cheias de grãos, verduras, madeira, couro e sabe-se lá o que mais. Ao redor das barracas e das lojas, uma freguesia constituída principalmente de mulheres fazia as compras para o sábado. Embora o mercado fosse o lugar onde se costumava ficar à procura de trabalho, o faz-tudo não acenou para pessoa alguma e ninguém acenou para ele.
Parto daqui sem saudades, pensou. Já deveria ter partido há anos."
In: MALAMUD, Bernard. O faz-tudo. Rio de Janeiro: Editora Record. 2006. p.25-30.
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