sábado, 15 de abril de 2017

DORES DO INDAIÁ E SEUS CAMPOS VERDEJANTES

Certa vez, o cronista Roberto Pompeu de Toledo, em crônica na última página da revista Veja (12.10.2007), quando falava sobre feiúra e beleza de nomes das cidades brasileiras, disse que "Há nomes de uma beleza triste...", e após citar cerca de uma dezena de cidades com nomes estranhamente poéticos, terminou o artigo assim: "Dores do Indaiá, no coração de Minas, é dos nomes mais bonitos do Brasil. Merece fechar este I Concurso de Beleza de Nomes das Cidades Brasileiras, criado e desenvolvido por este colunista, que foi ainda seu único e solitário juiz".

Eu e meus conterrâneos, claro, endossamos rapidamente esse concurso... rsrsrs Mas, meu pai, vivo àquela época, iria muito muito mais longe, pois sempre elegeu Dores como o mais belo município do mundo... talvez perdesse apenas para a beleza imaginada dos campos da Itália, terra de seus ancestrais maternos, onde nunca chegou a pisar. Uma vez, quando ele estava bem velhinho, eu visitei a Irlanda com meu marido (fomos ver um show de Neil Young em Dublin e outro de Crosby, Still e Nash em Cork) e tirei fotos lindas dos campos irlandeses, com pequenas propriedades rurais e gado nos pastos tranquilos. Ao retornar a Belo Horizonte e visitá-lo, então vivendo os últimos anos de sua vida no apartamento de mamãe no Luxemburgo, quis mostrar-lhe as lindas fotos rurais da Irlanda. Sabendo que a visão de campos verdejantes o alegrava, tive o disparate de inventar que aquelas fotos eram na Itália, só para ver a alegria se estampar no rosto dele. E, aos 97 anos, ele me disse que ainda sonhava visitar a Itália. Dessa forma, sentado à frente da tela do computador, lhe proporcionei um passeio por terras ancestrais...

Mas, voltando à Dores do Indaiá, terra boa de morar, como ele costumava brincar, não havia uma única vez que viajássemos por esses descampados de colinas verdes a perder de vista, que ele não exaltasse a beleza desses campos, das águas que banham toda a região, dos nossos belíssimos coqueirais de indaiás e macaúbas, da vista azul da Serra da Saudade e do gado bem alimentado nos pastos.

Pensar em Dores do Indaiá é voltar a Emídio Teles de Carvalho (por isso retorno sempre que posso), que, filho dorense há gerações, amava seu torrão natal e o cantava em versos e em qualquer conversa que tivesse oportunidade. Nunca conheci ninguém que tanto amasse a terra natal e esse amor obviamente entranhou-se em meus irmãos e em mim.

Em um de seus poemas, papai pede para ser enterrado em Dores, e que lhe deixássemos uma pequena fresta para que pudesse ver esses "belos campos alcatifados de flores". E assim o fizemos, atendendo a seu pedido, descansa em sono eterno junto a seus pais, irmãos e sobrinhos, no túmulo dos Telles de Carvalho, que ele mesmo mandou construir, à direita de quem entra na rua principal do cemitério Cristo Rei, em Dores do Indaiá.

Texto de Raquel Teles Yehezkel

Dores do Indaiá by Eduardo Guimarães 


3 comentários:

  1. São tão carinhosas suas palavras e suas lembranças de seu saudoso Pai, Raquel, que nos sentimos pequenos para acrescentar mais qualquer comentário a respeito. Sem mais comentários à fidelidade do amor do Sr. Emídio à nossa linda Dores e à ternura de seu texto.

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  2. 😣😣😣💔💔💔😭😭😭👐👐👐💔💔💔

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  3. Muito tocande o texto.O seu lirismo traduz a paixão de seu pai pelas terras dorenses...

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