Comecei o dia pensando em minha mãe. Na vivência dela. Em como pode alguém se tornar tão gigante sem quase nunca sair de casa... Como?...
Vivia pra família. Cumpria com zelo suas obrigações. Fazia compras pra casa, buscando sempre as ofertas, conduzia a rotina com calma e constância. Acordava cedo para acompanhar a saída dos filhos para a escola ou o trabalho. Em casa, passava o dia a costurar, a adaptar e consertar roupas para os filhos e roupas de cama. Também pintava panos de prato, bordava nossas roupas e lençóis (as irmãs dela também, todas muito prendadas). Adorava ler, e escrevia também. Gostava de cantar e sua voz era linda e afinada. Era muito próxima de Deus - numa fé inabalável. Não tenho nenhum desses talentos...
Demarcava a hora do almoço, merenda e jantar. Nos levava ao parque, se preciso, ao clube, à visitas aos parentes, passávamos longas temporadas juntos nas fazendas. Acompanhava se cumpriámos os deveres de casa, exigia que arrumássemos nossas camas diariamente e a casa aos fins de semana. Era enérgica, ao mesmo tempo muita serena. Às vezes ficava brava e nos batia - sempre no bumbum, dizia que bater no rosto fazia a pessoa perder o respeito, quer dizer, havia limites para o castigo rsrsrs
Tinha sempre uma aura de otimismo e bom humor. Era engraçadinha, fazia trocadilhos, tiradas humoradas, um talento nato da família dela, todos têm. É essa herança que mais invejo não ter herdado, a de fazer outros rirem rsrsrs Uma majestade em seu pequeno reino.
Não ruminava raiva, nem mágoa, as coisas ruins esquecia depressa. Era amorosa sem abraços e beijos - em receptividade, em doação para a casa, para nós, para a sua família toda. Recebia primos, parentes, compadres, sobrinhos, amigos dos filhos. Em sua casa comiam 10 ou 20. Jamais nos disse para não convidar alguém. Casa aberta e hospitaleira. Fazia doces em tachos, biscoito ou pão de queijo, batia um sorvete, estourava uma pipoca, coava um chá e um café (mas só tomava chá, jamais café), sempre um queijo minas (já amassamos alguns juntas) e a mesa estava posta. Era discreta, não esticava nem aumentava conversas...
Fico pensando em como uma pessoa caseira, reservada, alegre de pouca fala, sem grandes sonhos de mundo, tinha uma força tão grande. Seu nome ia à frente, levado pela educação dos filhos, pelo brilho deles na escola e no trabalho, pelas roupas bem feitas, pela casa aberta...
Em Dores do Indaiá, onde nascemos, ela era a Maria do Emídio rsrsrs pois naquela terra era forasteira. Era dali pertinho, de Bom Despacho e Luz, mas ali ele era local, havia gerações - alegre, extrovertido, mandão, neto de italiano, falava alto ocupando todo o espaço onde chegava rsrsrs
E exatamente nesse mesmo dia, na volta do trabalho para casa, tendo feito essas considerações pela manhã, li alguns comentários sábios da jornalista Sivan Rahav Meir sobre a parashá da semana (porção da Bíblia semanal, lida em todas as sinagogas do mundo). Diziam que toda mudança começa em casa, na vida privada, especialmente na mesa de refeição - num espaço simbólico entre a sala e a cozinha, em que se dá a vida social da família, onde a socialização com o outro se inicia e cria suas bases.
E assim, começando o dia pela falta de minha mãe, caminhando pela sua influência em nossas vidas, em como essa estrela brilhante em sua pequena constelação familiar iluminava e influenciava tantos, passando pela volta à casa no fim do dia e pelos ensinamentos da parashá da semana no ônibus, cheguei ao ponto final - em casa, onde tudo começa e termina.
Sim, os atos rotineiros têm o poder imenso do exemplo vivo. Sim, as grandes mudanças se concretizam a partir de atos corriqueiros em seu próprio entorno.
Raquel Teles Yehezkel
Israel, 2.2.2023

Nenhum comentário:
Postar um comentário