Outro dia, vendo num filme um pai ir à cama do filho para ver se estava tudo bem, eu disse ao meu marido, parece que esse tempo em nossas vidas foi há tanto tempo como num sonho, como se nem tivesse existido. Mesmo na perspectiva de nossos filhos que agora cuidam dos filhos deles é quase impossível lembrar concretamente desse tempo longínquo que se tornou memória fugidia.
Para entender que a vida é um sopro, que passa rapidamente, precisa-se da perspectiva do tempo vivido. Com a idade e os riscos de "perder" a vida, a transitoriedade torna-se real e presente.
Causa estranheza pensar que os meus netos não conhecerão bem e não conviverão com minha mãe, meu pai, sogra e sogro, irmãos e cunhados. Eles conhecerão a geração deles e uma anterior (a dos pais deles), e pronto.
Para eles, meu marido e eu somos esses de agora, um casal maduro que mora em Petah Tikva, Israel, que trabalha na Embaixada e numa lavanderia dessa cidade. Toda nossa vida pregressa, no Brasil, nos trabalhos anteriores, na juventude, lhes parece algo saído de um livro muito antigo...
Mesmo tendo estudado História, custou-me perceber a perspectiva histórica na vida humana e na minha própria vida. Um dia na fazenda da família, sugeri levar para lá os nossos avós e tios - que fizéssemos um cemitério para aqueles que quisessem ser enterrados lá... Então, numa conversa, minha irmã me trouxe à dimensão do tempo histórico na vida humana. Disse-me que em duas gerações já não se saberia mais quem foi quem e que em bem menos de cem anos a geração que viesse a pisar aquele chão não teria mais conhecimento e nem laços com os que ali agora vivem...
Segundo Saramago "Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir." Mas como fazer quando a memória é tão curta e o mundo atual tão efêmero e instantâneo? Toda cultura que perdura reverencia a memória de seus antepassados. Por isso a opção de construir um "memorial" para reverenciar nossos ancestrais e o trabalho das gerações passadas na fazenda, para que chegassem até os nossos dias, se mostrou uma opção importante e foi realizada. Mas, ainda assim, com todas as fotos, histórias contadas ou registradas em livros, quem de nós se lembra dos oito bisavós que tivemos? Quem, no final das contas, foram os avós de nossos pais, tão importantes na vida deles em tempo histórico recém-passado? Tudo torna-se histórias, memórias, um sonho distante ou, quem sabe, memória coletiva de muitos...
E, por fim, quem se lembrará de nós, do que fizemos, de como rimos ou choramos, dos caminhos que escolhemos?... Como diz minha irmã, que é bióloga e bioquímica, fica-se parte real no código genético e, outra, nos costumes de sua gente, para uma, duas, três gerações... diluindo numa eternidade sem fim.
E então?, somos efêmeros ou eternos?, um sopro ou uma corrente amarradinha?...
Raquel Teles Yehezkel
Israel, 28.3.2022

Lindo demais!!! 💖
ResponderExcluirIncrível! ❤️
ResponderExcluirMuito sagaz e inteligente, deveras bem colocado. Parabéns pelas suas percepções. Isso é história!!
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