sábado, 11 de janeiro de 2020

Cenas de Família e a Construção de Enredos

"O hoje é apenas um furo no futuro, por onde o passado começa a jorrar." Os versos de Raul Seixas me remeteram à matéria que li sobre a publicação de "Não Pai", de Daniel Blaufuks, sobre memória, Holocausto e um pai ausente, e ao programa de Kobi Meydan, "Sochen Tarbut / Agente de Cultura, que assisti em 10/1/20, no Canal 11, em Israel. Mãe e filha, ambas já de cabelos brancos, buscam um novo caminho em suas relações através da escritura de um livro à duas mãos: "Ech Saradti at Imi/ Como Sobrevivi à minha Mãe", de Martha e Dana Ramon. A mãe, Martha Ramon, é uma das fundadoras da importante organização "Enosh / Humano", reconhecida em Israel pelo trabalho de apoio a pessoas e a familias de portadores de doenças mentais. A filha, Dana Ramon, mora atualmente numa pequena cidade no sul da França. O livro trata do relacionamento interrompido e truncado entre as duas, e sua publicação é uma espécie de elaboração conjunta onde elas procuram se reencontrar e se perdoarem. O livro tem como base as cartas da filha para a mãe, desde a adolescência até a fase adulta, e as respostas às perguntas de então são buscadas agora, numa tentativa de entender a relação dolorosa. No programa, foi lido do livro uma frase da mãe, algo como, fui mãe do primeiro filho aos 25, da filha aos 28, me separei aos 36, minha filha deixou a casa quando eu tinha 40 e meu filho se suicidou quando eu tinha 46. Contou também que descobriu que o filho era esquizofrênico - doença mental considerada crônica - quando ele tinha 19 anos. A filha, que se sentia invisível para a mãe, cuja atenção estava focada nos problemas do filho, saiu de casa aos 12 anos e foi morar com o pai - que àquela altura estava em novo casamento, com um bebê recém-nascido -, onde também não encontrou seu lugar. Foi então transferida, pela assistência social, para um kibutz onde, naquele tempo, as crianças viviam de forma comunitária, em casa separada dos pais.

Tanto Daniel Blaufuks, que não teve oportunidade de refazer a relação com o pai, pela tamanha distância que os separava - só ficou sabendo da morte dele um mês depois -, quanto Dana Ramon, buscam, no presente, digerir o passado através da escrita. Me lembrei de Clarice Lispector, que afirmou que a escrita é uma forma de ludibriar a loucura, de buscar uma certa coerência no viver.

Caminhando ao longo do rio Yarkon, sob o sol após uma semana de chuvas intensas, testemunhei um cena que me tocou e me fez conectar de forma positiva com o que vinha remoendo desde que me deparei com as histórias de Daniel e de Dana. Um ciclista bem-equipado, com mais de 60 anos, na pista à minha frente, dirigindo com o celular na mão, fotografava uma jovem na casa dos 20, que vinha sorrindo na direção oposta a ele e a mim. Vi essa cena de carinho, e, logo a seguir, vi-o fotografar uma mulher mais velha, menos habituada à bicicleta, mas também sorridente. Testemunhei naquele momento, como um voyeur furtivo e esperançoso, a construção de um retrato de família que, imediatamente, me remeteu às possibilidades de reconstituição das histórias de Dana e de Daniel. A  construção de um enredo familiar, nesse caso em fotografias, em uma manhã linda de janeiro, no início da década de 2020: a família reunida numa atividade nada habitual, no parque Yarkon em Tel Aviv, Israel, a apenas poucos quilômetros dos bombardeios entre o Irã e os Estados Unidos, no Iraque, próximos à Síria, a alguns milhares quilômetros de Wuhan - eis aí uma parte da história se constituindo...

Por Raquel Teles Yehezkel
Israel 11.1.2020




Fontes acessadas em 11.1.2020:

https://carmelph.co.il/book/surviving-my-mother/

https://observador.pt/2020/01/09/memoria-holocausto-e-um-pai-ausente-daniel-blaufuks-escreveu-um-livro-que-e-um-mergulho-na-intimidade/

https://www.kan.org.il/program/?catid=1229


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