terça-feira, 25 de julho de 2017

Córrego Caiçaras e as águas da minha vida


CÓRREGO CAIÇARAS, Fazenda Riacho do Campo, Brasilândia, MG – VIII Encontro da Família Couto Cardoso Oliveira – 28 a 30 de julho de 2017 – Por Raquel Teles Yehezkel

Minha família amada, aqui de Israel, mesmo estando tão distante, tenho a enorme alegria de poder me unir a vocês neste momento da abertura do nosso VIII Encontro da Família Couto Cardoso de Olivera. O que nos faz estar aqui, hoje, reunidos, cheios de expectativas e vontade de compartilhar este momento em família? Cada um de nós é um pequeno elo de uma enorme corrente. Um elo aqui presente neste momento, por causa de outros muitos elos de uma corrente interrupta de antepassados que nos une até chegar aqui e agora. “Abençoado seja o Senhor do Universo que nos criou, nos sustentou e nos conduziu a este momento.” Cada um de nós é importante e forte o suficiente para não desfazer esta corrente, possibilitando esta vivência às gerações futuras, aos nossos filhos e aos filhos dos jovens que hoje se encontram entre nós. Somos todos Couto Cardoso e Oliveira, mesmo quando muitos já não carregam mais estes sobrenomes.

Sendo tema dessa VIII Festa o nosso córrego Caiçaras, tão importante para cada um de nós, nada me orgulha mais do que ter a oportunidade de nos fazer conectar, através dele, aos nossos antepassados queridos. Poderíamos juntos escrever um livro de memórias sobre as histórias que cada um de nós viveu no Caiçaras, dezenas de filhos desta família, que cresceram vindo aqui nesta fazenda, correndo neste gramado, cavalgando nesses campos. Mas vou falar das memórias do meu tempo, minha e de meus primos, que aqui crescemos unidos pelo amor e pela amizade entre nossos pais e nossos tios. E como falar de amor e da amizade entre eles, sem lembrar daqueles que se foram nesses últimos 3 anos? Nosso querido tio Zezinho, nossa amada tia Therezinha, nosso imenso coração, tio Zizico, e minha querida cunhada Regina Abreu. Que descansem em paz, pois assumimos a obra deles. Por causa deles e das gerações futuras, aqui estamos hoje!

O Caiçaras permeia entre nós a vida de 5 gerações. Vovô Gervásio quando escolheu construir esta casa neste lugar, escolheu-o por causa do Caiçaras, por sua água pura, boa, generosa e farta. À sua margem, ele construiu a serraria, onde torneou os pilares, os caibros, as portas, os currais e as cercas desta fazenda com as próprias mãos, perdendo parte de um dedo nessa labuta. Perto da serraria, instalou o carneiro, uma engenhoca que até hoje joga água para a casa, a cozinha, os banheiros e os currais. E fez a casa no alto, não tanto às margens, para não sofrer as intempéries das águas. Antes de atravessar o córrego para chegar na casa sede, foram construídas as casas dos caseiros, homens dedicados que acompanharam o vovô na labuta até essas paragens distantes, deixando aqui grande prole,  a casa do Zé Grande de um lado da estrada, onde hoje é a casa do tio Tato, e do Iranildes do outro, a casa rosada, tudo margeando o Caiçaras.

Naquele tempo, na época de férias em que a casa se enchia de filhos e de netos do vovô, não era dado a nós crianças o luxo de tomar banho nos banheiros; almoçávamos, esperávamos ansiosamente as duas horas da sesta e descíamos para o corrégo, pelo caminho que levava à serraria e ao carneiro. Era lá, mais abaixo, que nadávamos. Essas águas eram desde sempre a nossa alegria. O meninos, muito corajosos e levados, pulavam de ponta do alto de uma pedra, comandados pelo Paulo César, que era exímio nadador do clube de Patos. Voltávamos à casa limpos e famintos, à hora da merenda, que as nossas tias, Nora e Esmeralda, preparavam com todo o carinho: biscoitos, pães de queijos e bolos.

Tempos depois, viu-se que o poço acima tinha mais água e era mais perto da casa. Há muitos anos, em uma das férias, limpamos uma das margens para jogar vôlei e fazer churrasco. Pensamos em fazer uma pequena represa ali, para aumentar o poço de água. Entre nós tinham jovens estudantes de engenharia, que resolveram passar uma tela de lado a lado do córrego, com ajuda de pedras, para represar a água. Era julho, as águas baixas, era só construir a represa e com a vinda das chuvas o poço se encheria. Tio Zizico, sempre bem humorado e “capador”, disse que esterco com barro e capim era uma ótima solução para vedar a tela. Assim, passamos as férias em volta dessa represa, juntando bosta de vaca por tudo quanto é lado. E, claro, as primeiras águas levaram toda a barragem e o esterco grudado ao barro! Hoje, fez-se ali, de forma muito natural, uma barragem profissional, de pedras e cimento, que aumentou o nosso poço, tudo muito lindo, sem mexer no curso do rio.

Como não lembrar as inúmeras expedições corrégo acima, em busca das nascentes, descobrindo a cachoeira do Mosquito, homenagem ao primo Marcelo que liderou várias expedições? Ou corrégo abaixo, aonde o Caiçaras encontra o Morro Redondo? Ou do “ovo de dinossauro” que adorna a entrada da casa, ao lado da imagem de São Francisco, alçado do leito do córrego pelo carro do Henrique, com os sobrinhos de testemunha?

Assim, a família foi crescendo, e nossos tios tão queridos tiveram a generosidade de não vender essas terras, montando uma grande sociedade de amor e de amizade, da qual usufruímos até hoje, mesmo quando muitos já não têm terras aqui. Também ganhamos muitos agregados à nossa família, que, como nós, incorporaram às benesses desse lugar e das águas do Caiçaras, como o Frederico, marido da prima Mariana,  que tão bem soube cantar o nosso córrego: “Com as águas do Caiçaras com certeza, lavo minha alma ouvindo os pássaros cantar”.

Para mim, e para muitos que amam esse lugar, é nas águas do Caiçaras que vamos reestabelecer o nosso equíbrio perdido no dia a dia corrido das grandes cidades, como nos versos que escrevi para o Caiçaras em 2011:

Na Mansidão do Caiçaras

No quintal da casa construída por meu avô,
na fazenda Riacho do Campo,  
corre o córrego Caiçaras,
de água mansa e cristalina.
Nascido ali, nas veredas dos campos gerais,
não passa por nenhuma habitação humana
até cruzar o nosso quintal.

Tocado apenas pelo dedo Divino...
uma das grandes maravilhas do mundo,
quem banhou em suas águas
não esquece jamais.

Sempre que me encontro em desalinho,
fecho os olhos e me vejo nessas águas,
como eu fazia quando criança,
como faço até hoje,
quase todos os dias de minha vida.

As águas são o centro da vida, da humanidade, das comunidades e das famílias que delas vivem. Assim, essas águas são de muitos, e elas nos ligam a nossos ancestrais.

Clarice Lispector , que carregou a vida inteira, na pele, o sal do mar de Olinda, lembrando desses dias de sua infância disse: “A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?” e Clarice diz, “Nunca mais. Nunca”. Mas eu digo, sim. Aqui neste lugar, voltamos ao frescor da infância nos risos, na correria, em cada mergulho de um filho, neto, sobrinho ou priminho nas águas cristalinas do nosso amado córrego Caiçaras.

Mia Couto disse sobre ele e o avô dele no conto “Nas águas do tempo”, sobre o rio que banhava sua terra: “Ficávamos assim como em reza, tão quietos que parecíamos perfeitos.”
“A água e o tempo são irmãos gêmeos, nascidos do mesmo ventre. E eu acabava de descobrir em mim um rio que não haveria nunca de morrer. A esse rio volto agora a conduzir meu filho, lhe ensinando a vislumbrar os brancos panos da outra margem.” E a gente leva nossos filhos à margem do Caiçaras, e a eles mostramos as pedras de cores e texturas diferentes, com elas fazemos esculturas, desenhamos e pintamos corpos e pedras.

Um personagem de Guimarães Rosa em “Primeiras Estórias” disse ao pai, à margem do rio que banhava sua terra: “Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!... ” E com o coração em descompasso completou se referindo à própria morte: “...peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio". Ele, como o pai, era o rio.

Enfim, cada olhar traz consigo uma história de vida, e o que se vê é um pouco o que se vê e um pouco a própria bagagem que se carrega. E foi nesse tempo perdido que viajei hoje, de Israel até vocês, desejando que todos possam desfrutar desses momentos únicos de amor e de união familiar, com os nossos antepassados e com essa nova geração que nos liga ao futuro.






domingo, 21 de maio de 2017

Presente da Vida



Pensando nos presentes da vida,
claro, cheguei à ela,
minha irmã mais velha, minha fada madrinha.
Mariteles era o nome dela;
para nós Telinha. 

Uma irmã como uma mãe,
desde que tenho consciência de mim.
Dava banho nos irmãos mais novos,
nos levava à missa, para passear, tomar sorvete.
Já casada, nos levava a passeios em parques,
em fontes de águas minerais no sul de Minas, onde morava,
nos presenteava com doces, tortas, bolsas, roupas e
lindos cartões com palavras de amor e saudade.

Mais que esses cuidados e mimos,
estava sempre presente
estável, alegre, dedicada à família,
com opiniões firmes e equilibradas.

Cuidou do marido, do papai, da mamãe
e de mim, quando adoecemos.
Dizem que os casais que se amam
vão-se perto um do outro.
Perdendo o marido, Fernando de Melo –
também de Dores do Indaiá -,
ainda que com muita saúde e energia,
foi-se em seguida, rapidamente.

Acho que Deus nos preparou para sua partida
–  desde o primeiro acidente vascular.
Ainda que muda entre um acidente e o outro,
mas cheia de alegria,
nos deu a bênção de sua companhia por mais dois anos,
para que nos acostumássemos devagarzinho...
Já no hospital, pela segunda vez,
preparando-se para ir,
não acreditávamos que fosse partir.
Foi se dissipando suavemente, como fazem os anjos... 
Enquanto eu chorava distâncias...

Que dizer então, nesse dia em que o aniversário é dela,
mas o presente foi todo nosso?
Apenas reconhecer que a vida nos brindou com seu amor,
com o privilégio de compartilhar nossas vidas com ela.
Viva minha irmã em nossas memórias,
em nossos corações
e na vida plena de seus queridos filhos e netos.

20.5.2017

Petah Tikva, 20 de maio de 2017




Mamãe e Teminha





domingo, 16 de abril de 2017

PÁSCOA JUDAICA / PESSACH / PASSOVER

Páscoa Judaica / Pessach / Passover

Hoje às 6 da tarde começa a Semana de Pessach, a Páscoa judaica, Passover ou Passagem. É a saida do povo judeu do Egito: "Deixe meu povo ir", disse Moisés ao Faraó.

Pessach é cheio de simbologias. São muitas as passagens: é a passagem do Anjo da Morte que saltou as casas dos judeus no Egito, cujos umbrais das portas estavam marcados com sangue de cordeiro (hoje marcados pelas mezuzás), poupando-lhes os primogênitos; é a passagem do mar Vermelho que se abre para o povo judeu atravessá-lo; é a passagem do inverno para a primavera; mas é sobretudo a passagem da escravidão para a liberdade.

E assim comemoramos todos os anos, o Leil haSeder (Noite de Pessach), para lembrarmos que escravos fomos no Egito e escravos não seremos nunca mais. B"H. Esta noite e esta semana são diferentes de todas as noites e de todas as semanas do ano, pois nela não se come nada de farinha ou grãos, come-se sobretudo a matsá/ pão àzimo, sem fermento, um tipo de biscoito água e sal 20x20cm, para lembrar os 40 anos que os judeus viveram no deserto sem fermento para fazer o pão.

Nesta noite, a grande familia se reúne para um banquete e juntos leem A Agadá, um livreto que reconta a saga da libertação do povo judeu no Egito. E a noite segue uma ordem / Seder, por isso se chama Leil HaSeder, pois durante a leitura come-se folhas amargas para lembrar como era amarga a vida na escravidão; come-se harosset, uma mistura de tâmaras ou maçãs com castanhas, que simboliza o barro, a argamassa com que os escravos construíram os monumentos no antigo Egito; come-se ovos, simbolizando um novo começo, e canta-se várias canções que recontam a história. Nessa leitura, as crianças fazem perguntas e o avô ou o pai, o mais velho, que conduz o Seder, tem a oportunidade de responder e de recontar a história. E toma-se muito vinho.

É uma noite alegre, de rememoração. E durante uma semana comemora-se Pessach. Não se come nada de farinha toda a semana. As confeitarias, macdonalds, hamburguerias, falafels ficam fechados toda a semana. Os supermercados cobrem todas as prateleiras de produtos que levam farinha ou fermento. Em casa, troca-se todos os pratos, panelas, copos e talheres para outros que só se usam em Pessach.

Tudo isso para que lembremos que esta é uma semana diferente, uma semana de passagens...

Texto de Raquel Teles Yehezkel
Israel 10.4.2017


Pessach 2021




sábado, 15 de abril de 2017

DORES DO INDAIÁ E SEUS CAMPOS VERDEJANTES

Certa vez, o cronista Roberto Pompeu de Toledo, em crônica na última página da revista Veja (12.10.2007), quando falava sobre feiúra e beleza de nomes das cidades brasileiras, disse que "Há nomes de uma beleza triste...", e após citar cerca de uma dezena de cidades com nomes estranhamente poéticos, terminou o artigo assim: "Dores do Indaiá, no coração de Minas, é dos nomes mais bonitos do Brasil. Merece fechar este I Concurso de Beleza de Nomes das Cidades Brasileiras, criado e desenvolvido por este colunista, que foi ainda seu único e solitário juiz".

Eu e meus conterrâneos, claro, endossamos rapidamente esse concurso... rsrsrs Mas, meu pai, vivo àquela época, iria muito muito mais longe, pois sempre elegeu Dores como o mais belo município do mundo... talvez perdesse apenas para a beleza imaginada dos campos da Itália, terra de seus ancestrais maternos, onde nunca chegou a pisar. Uma vez, quando ele estava bem velhinho, eu visitei a Irlanda com meu marido (fomos ver um show de Neil Young em Dublin e outro de Crosby, Still e Nash em Cork) e tirei fotos lindas dos campos irlandeses, com pequenas propriedades rurais e gado nos pastos tranquilos. Ao retornar a Belo Horizonte e visitá-lo, então vivendo os últimos anos de sua vida no apartamento de mamãe no Luxemburgo, quis mostrar-lhe as lindas fotos rurais da Irlanda. Sabendo que a visão de campos verdejantes o alegrava, tive o disparate de inventar que aquelas fotos eram na Itália, só para ver a alegria se estampar no rosto dele. E, aos 97 anos, ele me disse que ainda sonhava visitar a Itália. Dessa forma, sentado à frente da tela do computador, lhe proporcionei um passeio por terras ancestrais...

Mas, voltando à Dores do Indaiá, terra boa de morar, como ele costumava brincar, não havia uma única vez que viajássemos por esses descampados de colinas verdes a perder de vista, que ele não exaltasse a beleza desses campos, das águas que banham toda a região, dos nossos belíssimos coqueirais de indaiás e macaúbas, da vista azul da Serra da Saudade e do gado bem alimentado nos pastos.

Pensar em Dores do Indaiá é voltar a Emídio Teles de Carvalho (por isso retorno sempre que posso), que, filho dorense há gerações, amava seu torrão natal e o cantava em versos e em qualquer conversa que tivesse oportunidade. Nunca conheci ninguém que tanto amasse a terra natal e esse amor obviamente entranhou-se em meus irmãos e em mim.

Em um de seus poemas, papai pede para ser enterrado em Dores, e que lhe deixássemos uma pequena fresta para que pudesse ver esses "belos campos alcatifados de flores". E assim o fizemos, atendendo a seu pedido, descansa em sono eterno junto a seus pais, irmãos e sobrinhos, no túmulo dos Telles de Carvalho, que ele mesmo mandou construir, à direita de quem entra na rua principal do cemitério Cristo Rei, em Dores do Indaiá.

Texto de Raquel Teles Yehezkel

Dores do Indaiá by Eduardo Guimarães