Fomos felizes juntos em todas as fases da vida dela e das nossas. A saudade nunca passa, a gratidão é eterna e a alegria real, por ter a consciência que grande parte dela vive em mim. Hoje li um texto sobre a tristeza da doença de alzheimer, mas afirmo que essa doença, apesar de triste, não é apenas triste. Temos convivido há gerações com o alzheimer na família, e isso nunca impediu a convivência prazerosa, alegre, próxima e afetuosa. Meu avô, um tio e três tias, pai e irmãos da minha mãe, se foram assim. Mamãe se foi assim. Passamos 10 anos com ela em cadeira de rodas e, na fase final, de cama. Nem ela, nem meus tios, nem meu avô demonstravam sofrimento. Eram realmente alegres, amados, uns amores. Estas também são características desta família. Foram anos de convivência proveitosa e afetuosa com todos eles.
Ao contrário do que muitos dizem, a pessoa não "morre" em vida só por que tem alzheimer. Ela continua viva, comunicativa e afetuosa, só que já não se lembra mais de tudo, se lembra de muito pouco, às vezes, de quase nada. Com mamãe, aproveitamos cada momento. Cantávamos juntos, íamos para a fazenda da família dela e também em Dores - família do meu pai. Contávamos casos, rezávamos com ela, ouvíamos os cds que ela gostava, fazíamos ela rir, reagir, com muitos e muitos momentos de lucidez. No presente, entendia tudo que dizíamos, apesar de não se lembrar da maior parte do passado, muito menos dos acontecimentos recentes. E daí? Contávamos a mesma história e cantávamos as mesmas músicas mil vezes. Suas canções preferidas tornaram-se hinos em nossa família.
É verdade, no final já nem falava, mas ainda estava lá, ria com facilidade, sempre positiva, até o fim, de bem com a vida. Ela não sabia quem era quem, mas sabia que todos que ali estavam eram sua família amada. E como foi durante toda a vida, se alegrava sempre que alguém chegava - filhos, cuidadoras, netos, bisnetos, sobrinhos, amigos, afilhados, vizinhos, porteiros, zeladores. Interagia com cada visita, com cada carinho a ela dedicado, a cada lampejo de alguma recordação.
Eu cantava sempre para ela: "Ai minha mãe, minha mãe menininha; ai minha mãe, menininha de Bom Despacho... A estrela mais linda, tá na Lagoa Verde; e o sol mais brilhante, tá lá nos Machados; a beleza do mundo, tá lá na Macela; e a mão da doçura, nas Jabuticabas; e o consolo da gente, ai, tá lá no Riacho...", lembrando as fazendas onde nasceu, cresceu, viveu e conviveu. E seus olhinhos brilhavam e ela sorria... Ai minha mãe, menininha...
Viveu tantos anos, até aos 97, e não foi em vão. Era bem tratada, muito amada, mantendo seu papel central em nossas vidas, e ela sabia disso. Montamos uma cama na sala, onde ela continuou sendo o centro da casa. Via o movimento da cozinha, da limpeza, ouvia música (tinha um monte de CDs), ouvia Missa pela televisão, recebia visitas diariamente. Fazia fisioterapia constantemente, passavam-lhe cremes nos pés e mãos, cortavam-lhe o ralo e fino cabelo, faziam-lhe pedicure e manicure - em casa. De noite, era levada para cama dela, no quarto dela, mudando sempre de ambiente. Nos fins de semana, enquanto pôde, a levávamos para o Retiro do Chalé, onde tinha uma casa, e nos reuníamos todos, aos domingos.
Fomos muito muito felizes nesses anos de alzheimer e ela também. Se não fosse feliz, não teria vivido tanto, teria com facilidade buscado um jeito inconsciente de encontrar alguma força que a levasse... Mas não fez isso. Viveu 97 anos para estar com gente. E este era o seu prazer - estar cercada pela família, e assim a mantivemos viva.
Minha mãe foi uma mãe extremamente cuidadosa e dedicada à família - durante toda sua vida - costurava, bordava, cantava, escrevia, fazia deliciosos doces e quitandas, buscava ofertas nos supermercados para manter a casa bem provida e aconchegante. Uma mulher ativa, calorosa, paciente, pacificadora, acolhedora, boa anfitriã, calma, enérgica e brava quando preciso, falava pouco e ouvia muito, um pouco contemplativa, bem disposta, com grande senso de responsabilidade, tinha uma imensa fé e era feliz com o que lhe cabia na vida. Deu o seu melhor, e nós fizemos o que nos era possível para retribuir tanta doação.
Portanto é triste, mas não é trágico, e pode também ser feliz. Posso testemunhar que nossa convivência nesse período de alzheimer, com nosso avô, com noss@s ti@s e com a mamãe, foram momentos de muito amor e de muitas alegrias compartilhadas ❤
Raquel Teles Yehezkel
Petah Tikva 19.12.2021